Tivemos prejuízo de 150 mil euros com a chuva
Posted February 18th, 2010 by jorge Comments Off Flexibom Light
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(Continuação da entrevista a Carlos Pacheco, do Boa Esperança Atlético Clube Portimonense)
Vocês metem-se muitas vezes com os autarcas e eles, normalmente, vêm assistir na primeira noite. Não te acontece olhares para eles e pensares: “que grande elefante que estão a engolir”?
Elefantes, não, mas, se calhar, alguns sapos. Posso dizer que, este ano, tivemos um senhor, cujo nome vou omitir, mas é alguém que está ligado a uma instituição da cidade, que viu o espectáculo, pela primeira vez, na estreia, estava na terceira fila e quando chegou a segunda parte, já tinha saído. Nós não falamos sobre a instituição de que ele está à frente, mas de qualquer forma, penso que ele se foi embora, não por motivos pessoais, mas, se calhar, pensou que ia bater à porta dele alguma crítica e antes que fosse tarde, fez-se ao caminho.
E os políticos têm fair-play, jogo de cintura para encaixar as críticas?
Acho que encaixam bem as críticas, até porque, normalmente, dou uma no cravo e outra na ferradura e quando as faço é olhos nos olhos, não tenho medo de as fazer e de os olhar de frente. Mas autarcas, este ano, pelo menos até à altura em que falamos, não tivemos cá muitos, foram apenas o vice-presidente e um vereador. O presidente e a vereadora da Cultura ainda não apareceram, embora me tenham mandado mensagens a desejar felicidades para o espectáculo. Espero que ainda venham, porque vamos cá ficar muito tempo.
Ao longo destes anos, houve muitos episódios engraçados e outros sem graça nenhuma. Lembro-me de um ano em que vieste representar de muletas. Como é que isso aconteceu?
Parti um pé pouco tempo antes de arrancarmos com o espectáculo. Os médicos diziam que eu não era capaz de ir para cima do palco na altura prevista e que tinha que adiar a estreia. Eu não quis fazê-lo e acabei por vir de muletas.
Este ano, também tivemos um contratempo. No dia 23 de Dezembro, houve uma intempérie, voou parte do tecto, ficou a céu aberto e tivemos 24 horas de chuva intensa dentro da sala, que nos danificou parte do equipamento, de que resultou um prejuízo de cerca de 150 mil euros. Até aqui, recebi um telefonema da vereadora da Cultura para saber se estava tudo bem e a dizer que nós éramos capazes de dar a volta à situação. Fomos, realmente, com a ajuda de toda a equipa, com várias pessoas a saírem daqui às cinco da manhã, porque não queria adiar a estreia que estava agendada para 21 de Janeiro. Essa estreia aconteceu mesmo, e hoje quem passa por aqui, mesmo que olhe com muita atenção para ver onde foram os estragos, não consegue visualizá-los porque demos a volta à situação.
Ao fim de tantos anos e, às vezes, com contratempos como este pelo caminho, não chega uma altura em que ficas farto e que pensas que já chega de revista?
Sinceramente, sinto-me um bocado cansado. Mas também penso que este espectáculo tem tendência a perder-se no tempo por falta de apoios e de incentivos e, por enquanto, ainda não apareceu a pessoa em que pudesse confiar tudo o que faço e permitir-me, não digo abandonar, mas dar-me um papel menos visível.
Para além disto ser uma tradição tão grande, quase de 50 anos, aqui no Boa Esperança, a revista à portuguesa é também um marco muito importante na nossa história. E hoje já não há muitos locais onde ela seja feita. Há apenas em Lisboa e num ou outro sítio no resto do país, mas a revista tem tendência, cada vez mais, a perder-se. Quem manda tende a descurar as coisas tradicionais, que são nossas, tenta-se importar mais aquilo que não é nosso porque é fino. Mas a revista é um espectáculo de massas que toda a gente gosta de ver e se diverte e, enquanto eu puder, vou fazer um esforço para continuar com esta revista.
Essa tendência não tem também a ver com o facto de ser um espectáculo caro?
Posso dizer que um espectáculo de revista é ‘chapa batida, chapa lambida’. É muito caro porque tem uma componente muito rica em termos de figurinos, é um elenco muito grande e são muito caros todos os adereços necessários para embelezá-lo. Só para começar a transformar a ideia em espectáculo, temos de ter, logo à partida, 25 mil euros. A seguir vêm mais 25 mil euros e mais 25 mil euros e acaba por ser muito caro. E depois, sabemos que o Ministério da Cultura não contempla verbas para apoio, porque diz que é um espectáculo de cultura popular e, como tal, que é auto-sustentável. Não percebo bem estes argumentos, mas são os que me dão quando apresento projectos e, já estou tão cansado de os apresentar, que agora já nem me dou a esse trabalho
A Câmara de Portimão dá-nos alguma ajuda, sobretudo, na promoção, mas isso é muito curto. Não queremos ser subsidiodependentes mas temos sempre uma luta muito grande para pôr de pé este espectáculo.
Em alguns anos, vocês fizeram uma versão mais curta e ligeira do espectáculo para levá-lo a outros locais. Este ano, isso também vai acontecer?
Vai, com toda certeza. Terminando a temporada aqui no Boa Esperança, quero transformá-lo num espectáculo mais curto e levá-lo a outros locais. Antigamente, a revista de Lisboa vinha à província, agora,como nós já estamos na província, quero levá-lo à aldeia. E vamos com certeza levar o espectáculo àquelas pessoas que não tiveram a possibilidade de vir vê-lo ao Boa Esperança.
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